Boris Vian (1920-1959)
boris vian.
francês. poeta, escritor, músico de jazz, cantor, jornalista, engenheiro e inventor. e mais tudo aquilo que lhe apetecesse, se não tivesse morrido aos 39 anos.
Por três vezes desisti de ler uma das suas obras "O Outono em Pequim", que nem tem nada a ver com o Outono nem é em Pequim, e por três vezes não me saiu da cabeça. E voltava ao livro como se de um íman se tratasse. Não o entendia mas também não o conseguia abandonar. Até que entrei numa espécie de transe, um transe despreocupado e livre, que julgo ser necessário para entrar em toda a sua não-história. E nunca mais o esqueci.
Nesta não-história há um deserto, há um hotel, há a construção de uma linha de caminho de ferro que nem vai a lado nenhum nem tem pretensões de levar ninguém. Há uma série de personagens que por um qualquer acontecimento absurdo são levados a este deserto onde nada é normal e ninguém se comporta como o esperado, apesar da naturalidade com que se relatam todos os factos.
Boris Vian morreu, de ataque cardíaco e aos gritos, a 23 de junho de 1959 durante a apresentação da adaptação a filme do seu livro I Spit on Your Grave. ..coerente. As suas últimas palavras? "These guys are supposed to be American? My ass!"
"O lixo caía, levantando nuvens de pó, o que lhe agradava, porque permitia a visibilidade do sol. Pela sombra da lanterna vermelha do grande seis, onde viviam polícias camuflados (era, na realidade, uma esquadra; e, para tirar toda e qualquer dúvida, o bordel ao lado ostentava uma lanterna azul), deviam ser mais ou menos oito horas e vinte e nove. Sobrava-lhe um minuto para chegar à paragem, o que perfazia exactamente sessenta passos por minuto, mas Amadis dava cinco de 4 em 4 segundos. O cálculo, demasiado complicado, dissolveu-se-lhe na cabeça e veio a ser expulso normalmente na urina, fazendo toc ao bater na porcelana. Mas só muito mais tarde."
O Outono em Pequim (L'automne à Pékin) 1946
francês. poeta, escritor, músico de jazz, cantor, jornalista, engenheiro e inventor. e mais tudo aquilo que lhe apetecesse, se não tivesse morrido aos 39 anos.
Por três vezes desisti de ler uma das suas obras "O Outono em Pequim", que nem tem nada a ver com o Outono nem é em Pequim, e por três vezes não me saiu da cabeça. E voltava ao livro como se de um íman se tratasse. Não o entendia mas também não o conseguia abandonar. Até que entrei numa espécie de transe, um transe despreocupado e livre, que julgo ser necessário para entrar em toda a sua não-história. E nunca mais o esqueci.
Nesta não-história há um deserto, há um hotel, há a construção de uma linha de caminho de ferro que nem vai a lado nenhum nem tem pretensões de levar ninguém. Há uma série de personagens que por um qualquer acontecimento absurdo são levados a este deserto onde nada é normal e ninguém se comporta como o esperado, apesar da naturalidade com que se relatam todos os factos.
Há cerca de um mês encontrei-me de novo com este livro, num qualquer derivado de
feira do livro em segunda mão encurralada a um canto na estação de
comboios de Santa Apolónia. E tinha de ser meu, e tinha de o ler de
novo. E li-o e lê-lo-ei uma e outra vez e sempre que a realidade se me tornar
demasiado aborrecida, ou ela própria surreal.
Boris Vian morreu, de ataque cardíaco e aos gritos, a 23 de junho de 1959 durante a apresentação da adaptação a filme do seu livro I Spit on Your Grave. ..coerente. As suas últimas palavras? "These guys are supposed to be American? My ass!"
"O lixo caía, levantando nuvens de pó, o que lhe agradava, porque permitia a visibilidade do sol. Pela sombra da lanterna vermelha do grande seis, onde viviam polícias camuflados (era, na realidade, uma esquadra; e, para tirar toda e qualquer dúvida, o bordel ao lado ostentava uma lanterna azul), deviam ser mais ou menos oito horas e vinte e nove. Sobrava-lhe um minuto para chegar à paragem, o que perfazia exactamente sessenta passos por minuto, mas Amadis dava cinco de 4 em 4 segundos. O cálculo, demasiado complicado, dissolveu-se-lhe na cabeça e veio a ser expulso normalmente na urina, fazendo toc ao bater na porcelana. Mas só muito mais tarde."
O Outono em Pequim (L'automne à Pékin) 1946



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