Moita
História
As origens da ocupação humana no Concelho da Moita remontam aos inícios do Neolítico e correspondem a uma ocupação de carácter habitacional com cerca de seis mil anos, como atestam os achados arqueológicos da jazida do Gaio.
Contudo, não se conhece uma continuidade da ocupação do espaço, na medida em que só a partir de meados do século XIII podemos apontar a existência de um núcleo humano em Alhos Vedros , como certifica o mais antigo documento que se conhece referente a esta localidade, que confirma a existência desse lugar com um capelão chamado Fernão Rodrigues, datado de 30 de Janeiro de 1298.
O povoamento da faixa ribeirinha, na qual se integra o território do atual concelho da Moita, só terá ocorrido de uma forma mais ou menos contínua com a pacificação de toda esta zona, o que nos faz supor que apenas terá sucedido após a reconquista definitiva de Alcácer do Sal em 1217.
Toda esta extensa região (doada por D. Sancho I, no ano de 1186) que se estendia desde a Margem Sul do Rio Tejo até à extrema do Alentejo estava na dependência direta da Ordem Militar de Santiago. É neste contexto que surge a designação de Riba Tejo, termo utilizado pelos freires de Santiago para denominarem o vasto território compreendido entre o rio de Coina e a ribeira das Enguias e no qual nasceram e se foram desenvolvendo vários núcleos populacionais, atraídos pela força do estuário.
Lendas
As festas em honra de Nossa Senhora dos Anjos (Alhos Vedros – Julho) confundem as suas origens com uma lenda: “Nos primórdios da nacionalidade, em Dia de Ramos, estando os moradores do lugar de Alhos Vedros a celebrarem na Igreja, a referida cerimónia, com os ramos de palma bentos, foram subitamente surpreendidos por um exército de mouros que havia descido o castelo de Palmela com o intuito de saquear e cativar os cristãos. Não detendo grandes armas o povo saiu com os ramos de palma e invocando a proteção da Nossa Senhora dos Anjos, pelejaram com grande bravura, provocando um grande horror e confusão entre a moirama que para salvarem as suas vidas bateram em retirada para Palmela. Como pagamento da promessa e em ação de graças por essa vitória, o povo de Alhos Vedros passou a celebrar todos os anos, no Dia de Ramos, Nossa Senhora dos Anjos”.
Esta lenda parece relacionar-se com a grande ofensiva almóada do final do século XII. A aproximação dos exércitos de Almansor (emir almorávida que lançou, em 1190, uma ofensiva a partir de Marrocos, com o objetivo de recuperar as terras conquistadas por D. Afonso Henriques) ao castelo de Palmela levou a que parte da população daquele castelo fugisse, provavelmente, para as terras que hoje são Alhos Vedros, por estas oferecerem melhores condições naturais de defesa.
Interpretando esta lenda à luz dos atuais conhecimentos, sabemos que para o homem da Idade Média esta fuga e entrega do castelo não teria sido uma ação digna de ser recordada, pelo que houve necessidade de se criar uma narrativa lendária, revestida de uma simbiose de humano e sobrenatural, de forma a colmatar a dureza da realidade e a ocultar o resultado dos factos históricos.
Cais da Moita
O Cais da Moita desempenhou, ao longo de séculos, um papel de grande relevância. O movimento fluvial de e para Lisboa, com mercadorias ou com passageiros, atribuiu a este ancoradouro uma grande importância económica e social. Durante séculos, o Cais foi o coração da vila da Moita. Toda a vida gravitava em seu torno. Era a grande porta para o exterior.
Aqui chegavam viajantes, carroças e carretas de bois carregadas de produtos, a fim de tomarem a carreira do barco para a cidade de Lisboa. Devido a toda essa movimentação diária de passageiros e mercadorias, cujo aumento se verificou a partir do século XVII, o cais transformou-se num verdadeiro posto de trabalho, onde um grande número de homens desempenhavam as tarefas de carregadores, vivendo das necessidades dos carregamentos que cada maré permitia efetuar.
Ligada a uma tradição de transportes entre as duas margens do Tejo, a atividade naval faz com que no território da Moita (tal como em toda a zona do Estuário do Tejo) se desenvolvessem embarcações que, pelo seu tamanho e características, respondessem às necessidades exigidas.
Assim, entre os barcos que nesta área tiveram mais desenvolvimento destacam-se os botes, as faluas, os varinos e as fragatas. Destes barcos possui a Câmara Municipal da Moita um exemplar; um varino “O Boa Viagem”. A recuperação desta embarcação tradicional entre 1980 e 1981, no estaleiro naval do mestre José Lopes, teve a Câmara Municipal da Moita como pioneira, seguida posteriormente por outras autarquias.
Entre os anos de 2010 e 2011, “O Boa Viagem” foi de novo submetido a uma grande intervenção que envolveu a própria estrutura da embarcação, no estaleiro naval de Sarilhos Pequenos. Ao longo deste processo de recuperação foram utilizadas as ancestrais técnicas de carpintaria naval, calafeto, tratamento e pinturas das madeiras.
O varino é uma embarcação de fundo chato, para navegar nos esteiros do rio, com águas de pouca profundidade. Exibe uma proa redonda, encimada pelo caneco ou capelo também aduncadamente recurvo para dentro. Ostenta as características pinturas decorativas no painel da proa, na antepara e nos barbados, conferindo-lhe um colorido inconfundível. Tem cerca de vinte metros de comprimento por cinco de largura, podendo transportar até duzentas toneladas.
Fonte: Retrato em Movimento do Concelho da Moita, Câmara Municipal da Moita, 2004
https://www.cm-moita.pt/conhecer/patrimonio
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